4.3. Algumas tendências de posição por parte de duas organizações portuguesas
A Centromarca é uma «Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca que congrega empresas com registo e/ou autorização do uso de marcas no território nacional cuja actividade principal seja a produção e/ou comercialização de produtos de marca e cujo objectivo principal consiste na promoção e defesa dos interesses dessas empresas» (Rousseau 2011:49).
A Centromarca foi fundado em Junho de 1994, por 24 empresas detentoras de marcas, no âmbito de defender o consumo de marcas do produtor face ao crescimento do consumo das marcas da distribuição. A Centromarca define marca como sendo um meio de diferenciação e inovação para o consumidor. Nesse sentido um dos principais objectivos da Centromarca é sensibilizar e apelar ao consumo das marcas do produtor, descredibilizando as marcas próprias da distribuição. Defende que as marcas da distribuição são fonte de problemas para a inovação do mercado, uma vez que não investem no I&D posicionando-se pelo preço baixo e pela imitação às marcas do produtor.
A Centromarca tem por base seis princípios prosseguidos por si e pela AIM – European Brands Association. (23)
Um mercado único, ou seja, apoia a livre circulação de bens e serviços.
1.Boas práticas comerciais – acreditam que o mais importante é trabalhar juntos para oferecer o melhor ao consumidor;
2.Protecção da Inovação – defendem a inovação e a concorrência desde que não sintam que haja um plagiarismo comercial;
3. Informação ao consumidor – compromisso de transmissão de informação credível ao consumidor;
4.Publicidade e comunicação comercial - assumem a honestidade da comunicação das marcas pertencentes;
5.Ambiente - preocupam-se com o impacto ambiental.
23 - Dados disponíveis em: http://www.centromarca.pt/docs/PrincipiosBase.pdf. Consultado a 3 de Agosto 2011.
Numa entrevista dada à Marketeer24 (Março de 2011), João Girbal Presidente da Centromarca, defende que «os grandes hipermercados estão a dar menos espaço aos produtos de marca, retirando as terceiras e as quartas marcas de fabricante». O Presidente da Centromarca refere ainda que os distribuidores “manipulam” a oferta de marcas nos locais de distribuição, fazendo com que influenciam a escolha dos consumidores, menciona que «por imposição do distribuidor chegamos à prateleira e temos dois produtos: a marca líder, de que o consumidor não abdica e a marca branca, que aposta exclusivamente no preço».
24 - PINTO, Maria (2011), «Radar: APED e Centromarca», Marketeer, nº 176, Lisboa: Multipublicações, p.48.
Aponta que «a venda dos produtos de marca branca cresceu em quase todas as cadeias de distribuição, acontece não só pela crise que estamos a passar, mas principalmente devido à retirada de marcas de fabricante das prateleiras e pela posição cada vez mais dominante e concentrada da distribuição em Portugal».
Relativamente à questão sobre os produtores cederem a produção, indica que os produtores terão de ceder enquanto a distribuição continuar a concentrar-se, enquanto a Autoridade da Concorrência não actuar de forma pró-activa e não for encontrado entre as partes um mecanismo para evitar a concentração na distribuição.
Relativamente ao crescimento das marcas da distribuição, está inerente a opção do consumidor e também relativamente a modelo de negócio e acordos que os distribuidores pretendem estabelecer com os fornecedores.
Indica que os distribuidores são quem marcam o preço final nas suas marcas e nas marcas dos produtos, tendo total controlo na distribuição de ambos os tipos de marcas e que os distribuidores tem acesso a informação detalhada sobre o consumidor, e essa informação não é fornecida aos produtos o que beneficia claramente os distribuidores que alocam o conhecimento obtido no desenvolvimento das suas próprias insígnias.
A APED - Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição é uma associação nacional, representativa do Comércio Moderno. A sua constituição engloba empresas cuja actividade está relacionada com o retalho – alimentar e não alimentar – de grande consumo, que tem como objectivo, entre outros, a defesa da livre concorrência e a liberdade de acesso ao mercado de todos os agentes económicos.
As principais actividades da APED são:
- Defesa da livre concorrência e a liberdade de acesso ao mercado de todos os agentes económicos.
- Apresentação de soluções legais para os problemas que interessam ao comércio e à venda de produtos de grande consumo em sistema de livre serviço.
- Representação dos interesses dos seus associados junto das entidades públicas e privadas, nacionais e estrangeiras.
Numa entrevista dada a revista Marketeer (25), Luís Reis, Presidente da APED, defende que as marcas da distribuição «vieram introduzir dinamismo e uma verdadeira cultura de concorrência num marcado dominado por grandes players». O Presidente da APED refere que há uma adesão por parte dos consumidores ao consumo das marcas da distribuição que em 2011 representam cerca de 25% do mercado alimentar. Este aumento do consumo por parte dos consumidores é apontado pelo Presidente da APED pela tomada de consciência dos consumidores dos benefícios existentes em consumir marcas da distribuição. Na entrevista dada, defende ainda que as marcas da distribuição introduziram dinamismo ao mercado, fazendo com que houvesse uma maior concorrência de preço. Por fim acrescenta que, quer as marcas da distribuição, quer as marcas do produtor, correm os mesmos perigos caso não se adaptem ao que os consumidores procuram, que é sobretudo concorrer pelo baixo preço, mas também pela qualidade e inovação.
25 - PINTO, Maria (2011), «Radar: APED e Centromarca», Marketeer, nº 176, Lisboa: Multipublicações, p.47. (ANEXO F.a – em formato digital).
Luís Reis menciona que a principal questão é se as marcas dos produtores estão predispostas a concorrer com as marcas da distribuição, de modo adaptar-se as necessidades dos consumidores e refere que num estudo efectuado pelo IPSOS (26) que:
«cerca de 80% dos consumidores globais indicaram que as marcas próprias são iguais ou melhores do que as (outras) marcas em muitos atributos, especialmente porque se ajustaram às suas necessidades, oferecem oportunidades, são boas para as famílias, preocupam-se com o meio ambiente e oferecem confiança». (27)
Reis reforça que há mercado para ambas as marcas quer de produtor quer para as marcas da distribuição, «as marcas, seja elas quais forem, próprias ou de fabricante, terão o destaque e o espaço nas prateleiras que a vontade do consumidor, conjugado com a gestão da loja, o determinam». Relaciona o facto de os consumidores informados fazerem as suas escolhas pelas marcas que oferecem uma melhor relação qualidade /preço.
26 - Empresa de estudos de mercado.
27 - PINTO, Maria (2011), «Radar: APED e Centromarca», Marketeer, nº 176, Lisboa: Multipublicações, pp. 46- 48. (ANEXO F.a – em formato digital).
Portugal encontra-se a meio da tabela europeia relativamente a quota de mercado dos produtos da distribuição, o que indica que existe ainda espaço para crescer, uma vez que os líderes têm mais de 50% de quota.
Conclui indicando que os consumidores por estarem cada vez mais bem informados optam pelas marcas da distribuição por serem marcas que se conseguiram adaptar a realidade economia e social dos consumidores e por apresentarem a melhor solução entre a qualidade/preço. O crescimento das marcas da distribuição passa essencialmente por dois factores apontados pelo Presidente da APED, preferência de consumo, por parte dos consumidores, das marcas da distribuição e adaptação das marcas dos fabricantes à realidade. A APED não toma partido de nenhuma marca vendo que ambas as marcas, que as da distribuição ou do fabricante tem de se adaptar as exigências dos consumidores.
A decisão final passa sempre pelo consumidor, logo o futuro passa pelas marcas adoptarem-se as exigências dos consumidores.
Tabela 3 - Diferentes perspectivas apresentadas pela Centromarca e APED face ao crescimento das marcas da distribuição
